2007
09.08

Este post é uma resposta a outro post escrito por Oheremita em seu blog em julho deste ano. Nele, Oheremita nota algo que usualmente deixamos escapar: lembramos com detalhes de muitos filmes que já vimos, até os que não gostamos. Mas dificilmente lembramos do conteúdo que aprendemos na escola, as vezes, a até a matéria que foi vista essa semana. E conclui dizendo:

Hoje temos a “tecnologia”, efeitos especiais, podemos criar dinossauros como se fossem de verdade, naves espaciais, mundos imaginários, gerras cataclísmicas (…). Penso que se usarmos nossa capacidade e transformarmos nossa escola, de inspetora para orientadora, e a tecnologia das artes cênicas, mais notadamente o cinema, para ensinar aos nossos filhos, poderemos dar mais um passo rumo a uma civilização…

Realmente, hoje a escola parece mais inspecionar do que orientar. É que o mundo mudou muito mais rápido do que ela consegue entender e nesse descompasso quem mais perde é o professor e o aluno. Mas não foi a escola que, de repente, se tornou desinteressante. Foi o mundo que passou a ser muito mais interessante que a escola.

O professor hoje raramente dispõe mais do que 5 cores de giz para utilizar no quadro negro enquanto o aluno tem no bolso da calça um display LCD da ordem de milhões de cores acoplado em um celular repleto de jogos. Um mero prato de arroz, feijão e bife tem muito menos sabor do que os biscoitos ultravitaminados, hipercoloridos que explodem na boca, deixam a língua azul e ainda com direito a brinquedinho novo no final. Tanto os professores como os pais cairam numa luta desleal contra a parafernália atual que desvia a atenção de nossos jovens e os viciam. Vício ? Sim, vício por estímulo.

Veja como os sentidos da geração que hoje freqüenta a escola é bombardeada. No visual, quase tudo ou pisca ou brilha no escuro. Na audição, os mp3 players, os toques de celular, o surround na TV em casa. No tato os diversos tecidos, texturas, cama de mola, os infláveis, os emborrachados (e indestrutíveis). No paladar os biscoitos ultravitaminados, os refrigerantes, iogurtes. No olfato os perfumes, tanto as colônias para passar no corpo como também no cheiro artificial dos brinquedos. E raramente os sentidos são estimulados sozinhos: pense no quão forte é o gosto e o cheiro de um pacote de Cheetos, como são barulhentos e piscantes os brinquedos de camelô ou ainda os controles de videogame que tremem quando algo acontece na tela.

Nossos jovens são viciados em estímulos. Não me excluo disso: também sou. Estamos tão acostumado a ter nossos sentidos estimulados que poucas quantidades de estímulos são desinteressantes ou entediantes. É assim que o joguinho de celular é mais interessante que uma aula de Biologia. É assim que um pacote de Trakinas é mais interessante que o arroz e feijão.

Resta então uma dúvida cruel para a escola: como combater o desinteresse dos alunos ? Combatendo o vício dos estímulos, fazendo-os desacelerar o ritmo louco que vivemos hoje e tentando proporcionar a eles uma vida mais pacata (e até saudável) ou tornar o espaço da sala de aula também hiperestimulante para fisgar os alunos ? Me parece que a maioria tem optado por combater fogo com fogo: entrando na era do hiperestímulo.

Quem deslancha na ponta, como era de se esperar, é a rede privada não-tradicional. Cursos de inglês, por exemplo, já têm em redes inteiras datashow e computador em cada sala de aula, onde as aulas são ministradas com recursos multimídia do computador, permitindo interatividade sob o acompanhamento de um professor. Aos poucos também as escolas regulares estão entrando nessa onda, principalmente com a disseminação dos ‘Colégios e Cursos‘, pois, por terem uma cultura de pré-vestibular, trazem o perfil do professor showman, que usa microfone, que ensina coreografias, danças e músicas para fixação do conteúdo.

Qualquer que seja a abordagem, seja no desacelerar em busca de uma escola mais zen ou numa escola multimídia e jovem, a peça mais importante é o professor. Ele precisa ser capacitado para ambas abordagens e no caso da segunda, ela precisa ser feita com Software Livre.

Afinal, educação em tecnologia sem Software Livre não é educação: é adestramento. No máximo, treinamento. Uma escola que oferece uma formação para a atualidade não pode apenas tratar o computador como um o templo da dupla ‘Editor de texto e impressora‘. Da mesma forma como a escola tem que oferecer um letramento textual, permitindo que o aluno aprenda a ler, escrever, interpretar e se expressar, tem que também oferecer um letramento digital. Desmistificar a tecnologia, o funcionamento da internet, as novas relações humanas, financeiras e intelectuais estabelecidas através da internet e novos os paradigmas de propriedade intelectual. Por acaso existe algo melhor que Software Livre para fazer isso ? Acho que não :D

11 comentários

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  1. S.L. é tudo de bom…

    O próprio “conceito” [por assim dizer] de Liberdade envolve outras questões como responsabilidade. Então, a LIBERDADE proposta por essas novas tecnologias que chegam é boa, sim. É responsável, sim.

    Gosto da forma como você descreve a questão do estimulo, nunca tinha pensado dessa maneira. E me sinto completamente cobaia desse novo-meio. Estamos: eu em Salvador – Bahia e você em Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, no entanto a todo tempo trocamos conhecimento. Debatemos, crescemos, etc. E isso tudo só é proporcionado por conta desse espaço chamado internet e os avanços dessa tecnologia!

    Viva ao novo!

  2. Sinto que minha proposta foi: combater fogo com fogo, confesso que não tinha percebido força com que fiz isto.

    O Software Livre, vem mostrar que informática não é “adestramento”, como você diz, em um sistema operacional e um editor de textos, de uma única empresa. Isto é libertação, sem sombra de dúvida.

    Parabéns pelas suas brilhantes colocações!

    Felicidades!!!
    T+

  3. Eu, como professor, dou aulas da maneira tradicional (cuspe e giz) mas usa blogs nos cursos (ninguém é perfeito). A utilização de recursos multimídia tem que ser muito dosada: a quantidade de informação passada é muito maior que da maneira tradicional e no mesmo tempo. Isto frequentemente significa que a absorção é bem menor. O tempo que o professor leva escrevendo no quadro (principalmente fórmulas em física/ciências) é fundamental para que o estudante possa digerir o que está sendo falado.

    Hoje a gente vai a um congresso em que o apresentador fala e mostra os slides em 10 minutos e você sai sempre com a impressão que o que ele falou é legal, mas você é incapaz de reproduzir sozinho o que acabou de ter sido apresentado.

  4. Bom, já que estamos falando em tecnologia na educação, recomendo a leitura deste texto: http://www.futuro.usp.br/centro_capacitacao/salas_de_aula.htm, bem como a pesquisa sobre Smart Board, a lousa sensível ao toque.

    Aqui na USP, temos exemplares deste projeto e posso afirmar que a educação poderá mudar radicalmente com essas novas tecnologias. A crítica do Thadeu se tornará obsoleta.

    Já que KurtKraut está focando bastante essa área tão importante que é a educação, peço que pesquise a respeito dessas tecnologias e métodos de ensinos que expus e redija um texto a fim de mostrar o poder da tecnologia entrando em ação para uma educação cada vez mais prodigiosa.

  5. Perfeito seu texto. Apóio cada idéia. Escrevi sobre algo relacionado há uns dias, e confesso que fiquei com inveja de não ter escrito um texto tão bem argumentativo e elaborado como o seu :)
    http://nerdson.com/blog/nota-dez-e-meio/

  6. Não fiz curso de computação, mas já tinha chegado à boa parte das conclusões que vc e o nerdson chegaram há um tempo atrás, pois aprendi tudo o que preciso de tecnologia na internet. Para que os cursos? hhh

  7. Muito interessante isso, só que vendo a atual realidade em que muitos colégios têm dificuldade de ter um laboratório de informática e quando possuem são aqueles pcs win98.
    A maioria dos professores não está nem aí pra capacitação muito menos pra dar aula, eles estão mais preocupados com o salário no final do mês.
    Para essa tecnologia estar acessível e bem administrada nos centros de ensino o país ainda tem que andar muito.

  8. Salas com projetores, lousas digitais, jogos, tudo isso é um mundo de estímulos que podem ajudar a prender a atenção do aluno, mas nada disso adianta se o conteúdo não for bem ministrado. Acho mais importante investir na capacitação do professor e no direcionamento da escola para um ambiente mais criativo e colaborativo.

    Digo isso porque nem sempre é necessário toda essa parafernália para prender a atenção. Falo isso com a experiência de ter um filho de 4 anos, que já tem uma conta no Desktop desde os 3, tem nintendo Wii, Playstation II, TV a Cabo, DVD, etc… e mesmo assim consegue se divertir brincando com um simples lápis e uma folha de papel, fazendo forte apache com as almofadas do sofá, brincando de jogo da memória, folheando gibis e ouvindo estórias tiradas de livros infantis.

    O que eu acho importante no papel do SL é que ele deve ser uma opção, tem que fazer parte do aprendizado e os alunos devem ser incentivados a mexer, alterar, quebrar e consertar,enfim, serem criativos, pois criatividade é o que tem garantido a sobrevivência da raça humana.

  9. [...] à escola/faculdade, se divertir, aprender e desejar chegar logo o outro dia para mais uma aula. Um post interessantíssimo do Kurtkraut fala melhor sobre isso. Iniciativas como essa já existem, como a da distribuição de [...]

  10. Parabéns, KurtKraut, gostaria de juntar minha voz à sua. Não acho que a tecnologia seja um problema: deve, sim, ser bem usada. Ignorar o mundo fora da aula é o mesmo que achar que estudamos por estudar. Não estudamos por estudar. Dar uma reguada na mão do aluno que não presta atenção (coisa que espero não aconteça mais) ou criar a turma dos burros (idem) é excluir da sociedade pessoas que pensam diferente, isso pra sitar somente situações extremas. E no caso aqui citado, na verdade, é excluir quem pensa de acordo com o mundo. Como criticar o mundo se não o conheço? Se o ignoro? O mundo não está perfeito, hoje parece que vivemos num sistema de castas, onde subir na vida é um sonho distante, somente estimulado pela sociedade porque a busca por esse “subir na vida” mantém o próprio sistema de castas. Como professores, devemos ir contra isso. O software livre é contra isso. O software livre mantém uma filosofia de inclusão. Então ele precisa, sim estar na sala de aula, da primeira série ao último ano de faculdade, com toda a parafernália (equipamentos) necessários a seu uso. Queria saber porque – e como – alguém pensa diferente disso…

  11. E aí rapaz vi seu link no gengibre… Muito legal seu texto Parabéns.